MANUEL RODRIGUES, PRESIDENTE DO MR GROUP

É uma história curiosa. Estava a estudar na área da Contabilidade quando tive que interromper o curso para ir para a tropa (no tempo da guerra colonial). O facto de passar a ter uma atividade remunerada possibilitou-me que casasse, sendo que a minha esposa foi colocada em Águeda e eu decidi vir com ela, tendo-me empregado numa empresa de ferragens. Empresa essa que, no pós 25 de abril, passou por dificuldades, o que me levou a criar a minha própria empresa exatamente no setor das ferragens para Alumínio – a M Rodrigues. Se calhar, se tivesse continuado na minha terra, poderia ter sido empresário na área dos lanifícios…
Hoje está à frente de um Grupo com uma dimensão apreciável…
Sim, o MR Group, que integra 7 empresas, sendo cinco de produção e duas de distribuição. Um Grupo que conta com cerca de 380 pessoas e que é o maior Grupo Português e um dos maiores da Europa no sector do fabrico de Ferragens e acessórios para sistemas de Alumínio, Vidro e Madeira. Que, até há sete, oito anos atrás, tinha como mercado principal a Península Ibérica. Com a crise que se instalou nestes países, e particularmente no setor imobiliário e da construção, diversificámos os destinos para onde exportamos, que hoje são constituídos por cerca de 60 países.
Com empresas instaladas noutros países.
Também com processos curiosos. Tivemos a necessidade de crescer para dar resposta ao mercado e surgiu a oportunidade de adquirir a empresa Marques SA, que também era da área das ferragens. Essa empresa detinha 50% do capital de uma outra empresa sedeada em Tânger, pertencendo os restantes 50% a uma empresa local. Presentemente somos detentores de 100% dessa empresa (a LUMAR). O que nos permitiu iniciar a internacionalização da atividade do Grupo
E como surgiu a ideia de instalar uma empresa na China?
Fundamentalmente, para defender o nosso produto. As fechaduras que produzimos podem ser comercializadas com cilindros (a que as pessoas chamam, normalmente, “canhões”) com diversas origens. Cilindros esses que, em muitos casos, são fornecidos pelos distribuidores em conjunto com as nossas fechaduras. A partir de uma certa altura esses cilindros eram, na sua esmagadora maioria, provenientes da China, constatando-se a sua fraca qualidade – o que levava as pessoas a atribuírem responsabilidades às fechaduras com a nossa marca. Para evitar essa situação decidimos montar uma unidade industrial na China dedicada à produção de cilindros de fechaduras, dado que em Portugal não os conseguia produzir a preços competitivos com os desse mercado. Foi assim que surgiu a Eiger, que se localiza perto de Shangai.
E como foi a adaptação a uma cultura tão diferente como a Chinesa?
Não foi muito difícil, porque arranjamos um parceiro chinês, ele próprio um exportador. Foi de facto uma grande ajuda, que quase desinteressadamente transmitiu-nos conhecimento, e ensinou-nos a movimentar no mundo empresarial chinês. Muito rapidamente conseguimos instalar a fábrica, transferindo para lá equipamentos e tecnologia e colocando à sua frente um quadro português, que ainda lá está e que assume o controlo operacional da empresa. E começámos a produzir cilindros com qualidade num prazo muito curto, resolvendo, assim, um problema que ameaçava a imagem de qualidade dos nossos produtos. E passando a fornecer esses componentes a outros fabricantes de fechaduras.
E como entrou a produção de moldes no Grupo? Também para dar resposta a uma contingência do mercado. Na indústria de ferragens há uma grande variedade de produtos, com elevada rotatividade. O que implica a produção rápida de moldes, ferramentas e cortantes para garantir uma rápida resposta às necessidades do mercado. Acontece que a indústria de moldes tinha alguma dificuldade em dar resposta a essa nossa necessidade, razão que nos levou a criar, em 1987, a Jomarliz, que fabrica moldes, para além do apoio que dá às outras empresas do Grupo. E, já que temos essa capacidade instalada, também a colocamos ao serviço de outras empresas, fabricando para elas moldes e outros componentes.
E o INEGI como é que aparece?
A indústria de ferragens carateriza-se por uma concorrência muito forte e por produtos pouco diferenciados, de fácil conceção. Face a estas caraterísticas o Grupo MR traçou uma estratégia baseada na criação de produtos de referência, posicionando-se num segmento de produtos de gama superior. Criámos há alguns anos um departamento de investigação e desenvolvimento que tem feito um bom trabalho. Mas, a partir de certa altura, considerámos fundamental aferir as metodologias que o nosso departamento tem e implementa. E começámos a procurar um parceiro da área do conhecimento tecnológico que nos ajudasse nos nossos processos e nas nossas pretensões evolutivas. Contatamos outras empresas que já tinham parceiros com universidades e procuramos saber dos seus resultados…
E chegaram ao INEGI…
Curiosamente estabelecemos um primeiro contacto com a Universidade de Aveiro (que serve a região onde nos inserimos. Só que esta Universidade, no ramo da Engenharia, estava, na altura, em negociações com uma empresa mais ou menos concorrente. Pelo que, não obstante o projeto ser claramente diferenciado, a Universidade optou por não assumir qualquer compromisso connosco para não entrar em concorrência desleal. Assim, e na sequência dos contactos que entretanto tínhamos desenvolvido com outras empresas, surgiu-nos efetivamente o INEGI.
O contacto foi fácil?
O INEGI tem caraterísticas da universidade, como o conhecimento e a capacidade científica. Mas o INEGI vai mais além: vai ao terreno, é capaz de desenvolver e apurar processos e de entrar em contato com o mundo empresarial diretamente. O INEGI tem uma panóplia de oferta, quer na área da investigação e desenvolvimento quer depois no apoio à implementação do processo, incluindo o apoio à montagem e submissão de projetos aos programas de financiamento existentes. Conseguimos o contacto da Professora Ana Reis e ela de imediato marcou a reunião. Fizemos a reunião e o casamento ficou feito. A situação foi esta, tão simples quanto isto.
O Projeto desenvolvido com o INEGI constou de quê?
Dentro da nossa estratégia de diferenciação e de aposta em produtos inovadores e de gama superior, decidimos entrar no merca-do das fechaduras eletrónicas. Apostámos, assim, num projeto que visou desenvolver uma fechadura baseada num conceito modular que permite a acoplação de três tipos de autenticação: Keypad, RFID e biométrico. Com a preocupação de ser um produto o mais universal possível, permitindo a sua aplicação numa gama alargada de portas. Estamos satisfeitos com os resultados e, agora, pretendemos fazer a sua evolução, possibilitando que a fechadura funcione em rede com possibilidade de acionamento remoto, o que tem interesse para o mercado hoteleiro e empresarial. Com tecnologia portuguesa, que é, também, um dos nossos objetivos.
Entrevista dada à revista Inegi notícias, nº 39.
(Manuel Rodrigues é licenciado na área da gestão e Presidente do MR Group, maior grupo empresarial nacional na área das ferragens, sedeado em Águeda.)




